
Entrei na onde de jogar Tarot pela Internet. É simples. Você entra em um site, embaralha as cartas com um click no mouse, as cartas realmente embaralham, e você vê aparecer no monitor o jogo mais arquetípico e milenar da história, tudo on-line. Você olha, e realmente é a carta do “Ceifador”ali. É incrível. Uma arte que passou de mão-em-mão através dos povos do Oriente, levada à ferro-e-fogo na Idade Média(pessoas eram queimadas), resplandecente dos ares Etruscos e das moedas de ouro das ciganas, bem ali, on line.
Me pergunto se a presença física não se faz necessária.Afinal a cartomante é uma figura respeitável por sua emanação e foram responsáveis pela Segunda Guerra Mundial, conquistando o respeito de Adolf. Achava que olhar nos olhos da operadora fazia parte da coisa toda. E minha resposta é não. Quase sempre bate. Sendo assim, os fluídos também são emanados via servidores. Certo?
Mas que tudo hoje em dia soa confuso pra mim que cresci lendo Chiclete com Banana e Rimbaud. Bebia Old Eight aos 14 e minhas revelações espirituais passeavam nesse esquema. Mas mesmo na época, jogar Tarot era algo que provoca medo e temor, curiosidade e respeito. Era algo que um amigo do amigo do seu primo jogou com uma cartomante em um shopping e saiu a carta da “Morte” e depois a pessoa morreu mesmo, 10 anos depois. Mas a Portadora da Arte estava lá.
Jogar Tarot naquela época era vivenciar a experiência de se estar com uma mulher que guardava segredo pra lá de orientais, mongóis, até. A barraquinha...o incenso...o olhar de gato preto...o kashimir avermelhado...as mãos enrugadas e o cheiro de almíscar rançoso cobrindo cristais pra lá de duvidosos. Isso era a verdadeira experiência Tarot.
Mas, não. Hoje não. Hoje eu jogo Tarot porque a Embratel permitiu que a Telefônica desvendasse o meu futuro. E isso abre novas possibilidades bem brasileiras, e nada Tibetanas.
Olha só:
Hoje me sai a carta do “Eremita”. A figura está lá, ok. É o mesmo Velho do Rio do Nilo de sempre. Isso não mudou, assumo. Eu dou o click e aparece a interpretação. É essa aqui:
“O arcano IX, chamado “O Eremita”, emerge como arcano conselheiro para este momento de sua vida, Rapha, sugerindo um momento em que você precisará agir com o máximo de maturidade e paciência possíveis. Você precisará aprender a respeitar o “tempo certo” neste momento de sua existência e perceberá que será preciso bater mais do que uma vez na mesma porta até que ela se abra.”
Leia-se: Fique em casa. Até porque o Eremita indica um recolhimento interior.
Como vira, o Tarot on line me chama de Rapha. Isso me arrepia até a espinha. Mas o que mais me deixou desconfiado de mim mesmo foi a facilidade para se arrumar justificativas psicológicas quando não sai a carta com a vibe que se espera. Afinal, quando se joga Tarot on-line, não sentimos a austeridade anciã da velha bruxa. Tudo é permitido. Meu notebook averatec não me joga olhares de sabedoria egípcia.
Estou louco pra sair e tomar um porre( uma agrado que meu fígado se recusa à satisfazer. Fico mais de ressaca por causa de um pastel do que por uma noite de longa jornada de bebedeira noite adentro), e o Ermitão me diz que seria bom ficar em casa e refletir. Portanto, por mais que eu acredite na Arte e no próprio Bom Velhinho do Nilo nesse momento, outra parte de mim diz:
São Paulo é minha caverna, portanto, sair e tomar um porre não deixa de ser uma “Eremitage”. Isso é Gerson. Uma nova maneira de dar uma garrinchada na sabedoria dos velhos de guerra do Mediterrâneo. E, tenha certeza, Gerson não fumava no intervalo dos jogos na frente do técnico.
Vou ser Eremita e já volto. E de táxi, que a terceira-idade merece transporte público gratuito.






